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Acesso aberto Revisado por pares
Editorial

Queimaduras: Uma patologia social que demanda atenção global e local

Burns: A social pathology that demands global and local attention

Bruno Barreto Cintra

DOI: 10.5935/2595-170X.20250020

As queimaduras configuram-se como um problema de saúde pública global, afetando milhões de pessoas todos os anos, com implicações que vão desde a mortalidade até a perda de capacidades físicas e o impacto psicossocial, configurando um importante marcador de desigualdade social


De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 265.000 mortes anuais são atribuídas diretamente a queimaduras, com 95% ocorrendo em países de baixa e média renda, onde a desigualdade social limita o acesso à prevenção e cuidados adequados. Em países de maior desenvolvimento, os avanços na assistência hospitalar e reabilitação têm reduzido significativamente a letalidade e melhorado a qualidade de vida dos sobreviventes. Em contrapartida, regiões menos favorecidas convivem com desafios graves, como a escassez de unidades de tratamento de queimados (UTQs).


O Brasil é considerado um dos países com a maior incidência de queimaduras no mundo. Dados do Sistema Único de Saúde (SUS) no período de 2015 a 2020 ocorreram 19.772 óbitos por queimaduras1, mais de 1 milhão de casos de queimaduras foram registrados no país, dos quais cerca de 100.000 necessitaram de hospitalização. Cerca de 21% das vítimas hospitalizadas são crianças com menos de cinco anos, refletindo o impacto dos acidentes domésticos, sobretudo em contexto socioeconômico desfavorável2.


Além disso, a desigualdade no acesso ao tratamento especializado é alarmante. Enquanto regiões como o Sudeste e o Sul apresentam infraestrutura mais robusta, como hospitais de referência equipados com UTQs, o Norte e Nordeste, que carecem de uma rede de assistência estruturada, mostram altos índices de morbimortalidade relacionados a queimaduras. Essa disparidade ilustra o papel da desigualdade no agravamento da patologia, que afeta desproporcionalmente grupos de maior vulnerabilidade.


Curiosamente, aspectos culturais e educacionais também influenciam a incidência: o hábito de cozinhar com fogareiros a gás ou lenha, principalmente em zonas rurais, segue como uma das principais causas de acidentes em crianças. No âmbito urbano, queimaduras por líquidos escaldantes e episódios de violência, como ataques com fogo e produtos químicos, têm aumentado. Este último destaca a relevância das queimaduras como uma manifestação de violência e exclusão social. Incluídas aqui, ainda, as queimaduras por fogos de artifícios e outras manifestações culturais.


As queimaduras ultrapassam os limites do impacto físico, afetando saúde mental, empregabilidade e qualidade de vida dos sobreviventes3. O custo de um tratamento completo, incluindo intervenções cirúrgicas, reabilitação e suporte psicológico, pode variar entre R$ 45.000 e R$ 90.000 por paciente, sobrecarregando o já fragilizado SUS. No Brasil, o custo estimado por hospitalização relacionada a queimaduras ultrapassou R$ 1 bilhão em 2023.


Outro elemento preocupante é a estigmatização dos sobreviventes, que frequentemente enfrentam desafios no retorno ao mercado de trabalho, além de impactos emocionais e sociais significativos. Globalmente, é reconhecido que essa condição acarreta isolamento social, sintomas psiquiátricos, como ansiedade e depressão, além de definir desigualdades pré-existentes, como o limitado acesso a serviços especializados para a população de baixa renda.


Internacionalmente, países como Austrália e Canadá têm implementado programas comunitários eficazes voltados para a prevenção de queimaduras, com ampla participação em campanhas de conscientização e programas de treinamento de primeiros socorros4. Já no Brasil, existem iniciativas como "Junho Laranja" e o Dia Nacional de Luta Contra Queimaduras: O dia 6 de junho é o Dia Nacional de Luta Contra Queimaduras, instituído por lei (Lei 12.026/2009). A Sociedade Brasileira de Queimaduras promove a campanha anual "Junho Laranja" em todo o país, com o objetivo de intensificar a conscientização e divulgar medidas preventivas.


Embora a estruturação de UTQs de Alta Complexidade seja essencial, estudos recentes recomendam expandir o cuidado pré-hospitalar para vítimas de queimaduras utilizando unidades móveis de triagem em regiões remotas. Outra frente seria impulsionar a pesquisa nacional para desenvolver tratamentos inovadores, como biomateriais para regeneração cutânea, reduzindo a dependência de importações.


Queimaduras, enquanto patologia social, transcendem a esfera médica, exigindo respostas interdisciplinares e políticas públicas eficientes. O Brasil, na posição de um dos países mais afetados, possui a obrigação moral e estratégica de liderar a aplicação de práticas preventivas e de equidade no tratamento, além de promover campanhas educacionais mais direcionadas à realidade sociocultural de suas populações.


O enfrentamento desse problema depende de um esforço colaborativo entre gestores, comunidade científica e sociedade civil, para que o impacto das queimaduras deixe de ser um reflexo das desigualdades sociais e passe a ser controlado por meio de estratégias bem fundamentadas e sustentáveis.


 


REFERÊNCIAS


1. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Boletim Epidemiológico. 2022;53(47).


2. Cruz BF, Cordovil PBL, Batista KNM. Perfil epidemiológico de pacientes que sofreram queimaduras no Brasil: revisão de literatura. Rev Bras Queimaduras. 2012;11(4):246-50.


3. Ivanko A, Garbuzov AE, Schoen JE, Kearns R, Phillips B, Murata E, et al. The Burden of Burns: An Analysis of Public Health Measures. J Burn Care Res. 2024;45(5):1095-7. 


4. Hebron C, Mehta K, Stewart B, Price P, Potokar T. Implementation of the World Health Organization Global Burn Registry: Lessons Learned. Ann Glob Health.


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