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Artigo Original

Os rastreadores de eventos adversos a medicamentos se aplicam a pacientes hospitalizados por queimaduras?

Do trigger tool drug adverse events apply to patients hospitalized for burns?

Pamela Alejandra Escalante Saavedra1; Leticia Soares2; Silvana Borges Nascimento3; Jessica Vick Leal de Oliveira4; Camila Alves Areda5; Kattia Braz da Cunha6; José Adorno7; Dayani Galato8

RESUMO

OBJETIVO: Avaliar a aplicabilidade dos rastreadores para identificação de eventos adversos a medicamentos em pacientes internados por queimaduras.
MÉTODO: Trata-se de um estudo transversal, baseado na revisão dos prontuários de pacientes hospitalizados na Unidade de Tratamento de Queimaduras do Hospital Regional da Asa Norte, Brasília, DF A aplicabilidade dos rastreadores foi verificada por meio da análise dos registros da evolução clínica dos pacientes.
RESULTADOS: Foram analisados 219 pacientes, dos quais 11 (5,0%) apresentaram eventos adversos registrados em prontuário. Em 57,1% (n=125) dos prontuários revisados foram encontrados rastreadores de eventos adversos a medicamentos, sendo os mais eficientes: antieméticos, anti-histamínicos, naloxona, elevação de creatinina sérica, contagem de plaquetas <50.000, sedação excessiva, rash cutâneo, transferência para nível de cuidado de maior complexidade e interrupção abrupta do tratamento. Contudo, verificou-se que alguns rastreadores se confundem com a evolução do tratamento ou com os procedimentos realizados, como é o caso do prurido e da glicose <50mg/dL. Houve associação entre o registro de eventos adversos com número de medicamentos utilizados maior que 13 (p=0,003).
CONCLUSÃO: Observou-se que busca ativa de eventos adversos com uso de rastreadores ajudou na detecção de eventos dessa natureza, o que poderia melhorar o cuidado em saúde dos pacientes queimados. Contudo, os resultados apontaram a necessidade de validação de rastreadores específicos da terapêutica das queimaduras.

Palavras-chave: Efeitos colaterais e Reações Adversas Relacionados a Medicamentos. Segurança do Paciente. Queimaduras. Medicamentos Genéricos.

ABSTRACT

OBJECTIVE: To evaluate the applicability of trigger tools to detect adverse drug events in inpatients at the Burn Care Unit of Hospital Regional da Asa Norte, Brasília, DF
METHODS: We performed a cross-sectional study, we reviewed and analyzed electronic health records of inpatients.
RESULTS: We analyzed 219 patients, eleven inpatients (5.0%) experienced adverse events. Here we show that trigger tools in 57.1% (n=125) of electronic health records reviewed. The trigger tools antiemetic, antihistamines, naloxone, serum creatinine elevation, platelet counts <50,000, excessive sedation, skin rash, to transfer to level of care more complex and abrupt cessation of treatment pointed out adverse drug events. We find association between occurrence of adverse events and number of drugs used greater than 13 (p=0.003).
CONCLUSION: We observed that use of trigger tools in active surveillance allows for identification and assessment of adverse events among hospitalized patients. However, the results pointed out the need for validation of specific trigger tools of burn therapy.

Keywords: Drug-Related Side Effects and Adverse Reactions. Patient Safety. Burns. Drugs, Generic.

INTRODUÇÃO

Entre os recursos disponíveis ao tratamento de doenças, o uso de medicamentos é um dos mais empregados, no entanto, eventos adversos a medicamentos (EAM) e erros medicação são frequentes no ambiente hospitalar1, provocando o aumento da morbimortalidade dos pacientes e tornando-se um problema de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde, evento adverso é qualquer ocorrência médica desfavorável que pode ocorrer durante o tratamento com um medicamento, mas que não possui, necessariamente, relação causal com esse tratamento.

Inseridos no conceito de evento adverso estão as reações adversas aos medicamentos (RAM). Os erros de medicação podem ser compreendidos como uma causa evitável para os eventos adversos. Segundo alguns autores, um evento adverso a medicamentos pode ser entendido como um dano causado pelo uso do medicamento2.

No Brasil, foi identificada incidência de eventos adversos em 7,6% dos pacientes internados, sendo 66,7% destes eventos evitáveis3. Um estudo realizado em hospital do Rio de Janeiro identificou incidência de 14,3% de eventos adversos a medicamentos em pacientes hospitalizados4. Resultados ainda mais expressivos foram encontrados em estudo realizado em hospital pediátrico argentino, que apontou frequência de 26% de eventos adversos, em sua maioria dano temporário, em pacientes hospitalizados5. Destaca-se que os incidentes devem ser informados ou notificados aos gestores do serviço de saúde para que medidas preventivas possam ser tomadas6, mesmo que não tenham gerado um EAM.

Dada a importância da identificação das causas dos EAM, realizam-se pesquisas utilizando listas de rastreadores. Os sinais ou rastreadores atuam como pistas na identificação de um EAM e são representados, por exemplo, por alterações clínicas como níveis plasmáticos de glicose, uso de medicamentos como vitamina K ou anti-histamínicos ou mesmo pela suspensão abrupta de algum tratamento farmacológico7. A metodologia de busca ativa de eventos adversos utilizando sinais discretos ou rastreadores rapidamente localizados no prontuário eletrônico se tornou um desafio para instituições envolvidas em segurança do paciente. Os sistemas automatizados de detecção de danos em tempo real são relevantes para substituir a revisão manual de prontuários, o que permitiria intervenção imediata de clínicos para prevenir ou mitigar danos iminentes8.

Vários estudos sobre EAM já foram realizados envolvendo pacientes em ambiente hospitalar7, mas há carência em pacientes queimados. As queimaduras são lesões extremamente agressivas e, em grande parte das ocorrências, são provocadas por agentes térmicos, químicos ou elétricos9,10. Podem atingir camadas profundas como tecido muscular, tendões e ossos, podendo levar à perda de função, de membros ou à morte do indivíduo.

O tratamento de pacientes com queimaduras é complexo e envolve diversas estratégias, como procedimentos cirúrgicos e curativos especiais, além de inúmeros medicamentos10. Estes pacientes geralmente permanecem no hospital por longos períodos10 e devido à gravidade do caso, a ocorrência de eventos adversos relacionados aos medicamentos pode comprometer ainda mais o estado de saúde11.

O objetivo do presente trabalho foi avaliar a aplicabilidade dos rastreadores para identificação de eventos adversos a medicamentos em pacientes internados em uma Unidade de Tratamento de Queimados (UTQ) de um hospital de alta complexidade referência em queimados do Distrito Federal.


MÉTODO

Tipo e local do estudo


Foi realizado estudo transversal, baseado na análise documental do livro de registros e dos prontuários eletrônicos dos pacientes da Unidade de Tratamento de Queimados de um hospital de média e alta complexidade, em Brasília, Distrito Federal. A UTQ é um dos 40 centros de referência no atendimento às vítimas de queimaduras do país e o principal da Região Centro-Oeste, atendendo em torno de 200 pacientes agudos (queimaduras recentes) por mês, dos quais aproximadamente 20 necessitam de internação devido à gravidade das lesões10.

População

Foram incluídos no estudo todos os pacientes hospitalizados por queimaduras, no período de 1° de janeiro a 31 de dezembro de 2014. Pacientes com reinternação para cirurgia reparadora ou com internações não relacionadas a queimaduras foram excluídos. As reinternações (pacientes sequelados) foram excluídas por serem na sua maioria de curta duração e por apresentar tratamentos medicamentosos ou não medicamentosos muito distintos das internações agudas.

Instrumentos e coleta de dados

Pacientes, trauma e hospitalização: Foram revisados os prontuários eletrônicos para dados demográficos e do trauma (idade, sexo, comorbidades), para dados da hospitalização (superfície corporal queimada, agente causador, tempo de internação, tipo de saída - alta, transferência, óbito ou evasão), os resultados laboratoriais e as prescrições diárias. Foi utilizada a Diretriz do Ministério da Saúde para determinação da superfície corporal queimada e classificação do agente causador9.

Uso de medicamentos e hemoderivados: quanto ao uso de medicamentos, foi investigado, além do nome, o número de medicamentos utilizados durante toda a internação. Os medicamentos identificados foram classificados segundo classificação Anatômica Terapêutica Química (ATC).

As informações coletadas foram referentes a todo o período de internação dos pacientes, considerando-se desde a admissão hospitalar até a alta, transferência ou óbito. Os medicamentos utilizados foram aqueles prescritos durante toda a internação dos pacientes.

Rastreadores

Os rastreadores de eventos adversos utilizados foram aqueles presentes na lista proposta em 2004 pelo Institute Healthcare Improvement (IHI)12 e adaptados por Giordani et al.13, os quais pretendem identificar medicamentos, resultados laboratoriais e sinais/sintomas presentes na documentação clínica dos pacientes que indiquem um possível EAM. A lista de rastreadores pesquisados nos prontuários inclui 19 itens divididos em: medicamentos (sete), resultados laboratoriais alterados (oito) e sinais/sintomas clínicos (quatro).

Os medicamentos rastreadores foram antieméticos (droperidona, ondansetrona, prometazina, hidroxizina, proclorperazina, trime-tobenzamida ou metoclopramida), anti-histamínicos (difenidramina e dexclorfeniramina), antidiarreico, vitamina K, flumazenil, naloxona, e poliestireno de sódio.

Os resultados laboratoriais alterados investigados foram glicose <50 mg/dL, elevação da creatinina sérica, contagem de plaquetas <50.000, contagem de glóbulos brancos <3.000, exame positivo para C. difficile nas fezes, tempo de tromboplastina parcialmente ativada (PTT) >100 segundos, razão normalizada internacional (IRN) >6 e níveis de digoxina >2ng/mL. Os sinais e sintomas pesquisados foram: sedação excessiva, incluindo letargia e queda, rash cutâneo, transferência para nível de cuidado de maior complexidade e interrupção abrupta da medicação.

O procedimento de busca de rastreadores em prontuários foi realizado por dois pesquisadores de maneira independente e os resultados confrontados para concordância, as diferenças foram resolvidas por um terceiro pesquisador. Os rastreadores referentes a sinais e sintomas clínicos foram identificados por revisão detalhada da evolução médica, da enfermagem e relatório de alta registrados no prontuário eletrônico de cada paciente.

Os resultados laboratoriais alterados e uso de medicamentos foram extraídos dos laudos e das prescrições diárias de cada paciente, respectivamente. Os prontuários identificados com presença de rastreador(es) foram separados e utilizados para composição da amostra.

Eventos adversos a medicamentos e estabelecimento da causalidade: A amostra de prontuários com presença de rastreadores passou por 2a revisão para identificação da presença ou registro de evento adverso ao medicamento. Desta forma, considerou-se evento adverso relacionado aos medicamentos as situações registradas nos prontuários que causaram dano aos pacientes e que puderam ser posteriormente relacionadas ao uso de medicamentos.

Para determinação da causalidade, foram analisados pelos pesquisadores os dados clínicos, resultados laboratoriais e os medicamentos adotados pelos pacientes. Foi utilizado o algoritmo proposto por Naranjo et al. (1981) para determinação da causalidade dos eventos adversos aos medicamentos.

Estudo Piloto

Para avaliar a aplicabilidade do instrumento de coleta de dados desenvolvido, foi realizado um piloto com 10% da população do estudo. Os resultados indicaram a necessidade de ajustes no instrumento como alteração da ordem das variáveis, inclusão da variável 'agente causador da queimadura', o uso (ou não) de hemocomponentes e hemoderivados e o tipo de saída do hospital.

Análise estatística

Os dados coletados foram armazenados em banco de dados no programa Epidata versão 3.0 e posteriormente analisados no Statistical Package for Social Science (SPSS) versão 20.0. Eles foram avaliados por meio da estatística descritiva, sendo as variáveis numéricas apresentadas em medidas de tendência central e dispersão e as variáveis nominais, em números absolutos e proporções. Para cálculo de associação, foram realizados o teste do Qui-quadrado e a Prova exata de Fisher e considerado significativo o p-valor menor ou igual a 0,05.

As prevalências dos rastreadores e dos eventos adversos foram apresentadas em proporção. No caso do EAM foi realizada a proporção entre o número de casos (pacientes) com EAM em relação ao número de pacientes expostos aos medicamentos (no caso, todos os pacientes investigados).

Considerações éticas

Foi obtida autorização da Diretoria do hospital para acesso e consulta ao sistema informatizado de registros de saúde institucional (Trackcare). O projeto foi submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa por meio da plataforma Brasil e aprovado sob o número 994.877 em março de 2015.


RESULTADOS

Durante o período de estudo, foram admitidos para hospitalização na unidade de tratamento de queimados 234 sujeitos. Desses, 15 foram excluídos por reinternações para cirurgias corretivas ou internação por outros motivos, sendo considerados 219 participantes. As queimaduras de 2° grau foram motivo de internação de 79,4% (n=173) dos pacientes e a média de superfície corporal queimada foi de 14,9% (DP ± 16,4%; mediana 10%). Em 86,0% (n=188) dos pacientes ocorreu alta conforme plano terapêutico e seguiram em acompanhamento ambulatorial; para 2,7% (n = 6) dos pacientes houve necessidade de transferência para outro nível de complexidade de tratamento; em outros 5,0% (n=11) dos pacientes ocorreu óbito em decorrência do trauma. Em 6,3% (n=14) dos pacientes havia lacunas de informação sobre o tipo de saída hospitalar.

A média de idade dos pacientes deste estudo foi de 32,4 anos (DP ± 20,1) e o tempo médio de internação foi de l3,9 dias (DP ± l3,7; mediana l0 dias). As comorbidades estiveram presentes, no momento da internação, em 63% (n=134) dos pacientes, sendo as mais frequentes o tabagismo (26,1%; n = 35), etilismo (23,9%; n = 32), hipertensão arterial sistêmica (18,1%; n=24), obesidade (17,4%; n=23), entre outras.

Os 2l9 pacientes foram expostos a diferentes medicamentos durante o período de hospitalização. A quantidade de

medicamentos diferentes utilizados por paciente esteve entre um e 59, com média de utilização de 14 (DP ± 8,2; mediana de 13). Os medicamentos prescritos mais frequentemente por paciente foram: dipirona sódica (93,6%; n=205), ranitidina (83,1%; n=182), glicose (74%; n=162), sulfadiazina (67,1%; n=147), albendazol (61,6%; n=135), ampicilina e inibidor enzimático (55,7%; n=122), cloreto de sódio (54,8%; n=120), tramadol (47,5%; n=104), dexclorfeniramina (36,1%; n=79), mebendazol (32,4%; n=71), morfina (31,5%; n = 69), omeprazol (30,6%; n = 67), vacina antitetânica (27,4%; n = 60), clorexidina (24,2%; n = 53) e ondansetrona (23,7%; n = 52). Os hemocomponentes e hemoderivados foram utilizados por 31,1% (n = 68) dos pacientes, sendo os mais administrados o concentrado de hemácias (23,4%; n=16) e a albumina humana (14,6%; n=10).

Os prontuários revisados apontaram presença de zero a cinco rastreadores (total: 203), conferindo uma média de 0,9 (DP ± 1,1) e mediana de um rastreador, estando presentes em 57,1% (n=125) prontuários dos pacientes hospitalizados na unidade. Os principais rastreadores identificados foram antieméticos (55,2%; n = 69), anti-histamínicos (42,4%; n = 53) e glicose <50mg/dL em 28,8% (n = 36) dos casos (Tabela 1).




Dos 16 rastreadores investigados nos 125 prontuários, nove (antieméticos, anti-histamínicos, naloxona, elevação de creatinina sérica, contagem de plaquetas <50.000, sedação excessiva, rash cutâneo, transferência para nível de cuidado de maior complexidade e interrupção abrupta do tratamento) apontaram suspeita de EAM. Outros três (antidiarreico, glicose <50mg/dL e contagem de glóbulos brancos <3.000), embora presentes nos prontuários, não identificaram EAM.

Quatro rastreadores (vitamina K, flumazenil, PTT >100 segundos e INR >6) não foram encontrados nos prontuários revisados (Tabela 1). Não foi possível avaliar os rastreadores poliestireno de sódio, exame positivo de C difficile e níveis de digoxina maior que 2 nm/mL devido a não ser parte da rotina da unidade de tratamento de queimados do hospital.

Em mais da metade dos prontuários revisados foi identificado ao menos um rastreador de EAM, entretanto, mesmo que esse número tenha sido alto, constatou-se incidência de 5,0% (11/219) de pacientes com registro de suspeita de eventos adversos a medicamentos. Contudo, houve pacientes com mais de um registro de suspeita de evento adverso, sendo 24 EAM nos 11 pacientes.

Os órgãos e sistemas fisiológicos afetados pelos eventos adversos foram trato gastrointestinal (desconforto e dor abdominal, náuseas, vômitos e diarreia), dermatológico (placas eritematosas e prurido intenso), sistema respiratório (taquipneia e dispneia), trato urinário (nefrotoxicidade), sistema cardiovascular (extrassístole e taquicardia), sistema nervoso central (síndrome extrapiramidal) e outros (desorientação, mal-estar e leucocitose).

A causalidade dos eventos adversos a medicamentos foi estabelecida como definida para sete situações. Esta relação foi estabelecida como provável em 10 situações, como possível em duas situações e duvidosa em outras duas situações. Em três casos não foi possível estabelecer a relação causal dos eventos adversos devido a lacunas de informação (Tabela 2).




Houve associação significante entre ocorrência de evento adverso e número de medicamentos utilizados maior que 13 (p<0,003). Não foi encontrada associação significante entre eventos adversos a medicamentos e desfecho óbito, porcentagem de superfície corporal queimada ou agente causador da queimadura (Tabela 3).




DISCUSSÃO

As informações relacionadas à descrição das características sociodemográficas, clínicas, do trauma e da hospitalização dos participantes deste estudo foram descritas e publicadas por Nascimento et al.10.

Há muitos trabalhos publicados na literatura que abordam o tratamento de pacientes vítimas de queimaduras, contudo, há carência de trabalhos que estudem o tratamento medicamentoso e a segurança dos pacientes relacionadas a este tipo de tratamento. Neste contexto, a ocorrência de EAM e o uso de rastreadores foram investigados trazendo uma contribuição para a literatura sobre o tema. Neste estudo, foi observado que a presença de rastreadores não difere daquela verificada por Giordani et al.13 em hospital universitário do Sul do país, quando estes observaram a presença de rastreadores em 62,9% dos prontuários investigados.

Os resultados deste estudo mostraram que, da lista de 16 rastreadores pesquisados, mais da metade (nove) apontaram suspeitas de EAM; três, embora presentes nos prontuários, não identificaram registros de EAM e quatro não foram encontrados em nenhum dos prontuários revisados. Resultado semelhante ao encontrado em estudo realizado por Rozenfeld et al.7 em hospital do Rio de Janeiro.

Nesse estudo, da lista de 18 rastreadores utilizados, oito (uso de coagulantes, antieméticos, digoxina; glicose sanguínea <50 mg/dL, elevação sérica de creatinina, sedação, rash cutâneo e interrupção abrupta de medicação) identificaram de fato EAM. Outros seis (uso de anti-histamínicos ou antidiarreico, ou resina de troca iônica, diminuição de leucócitos, diminuição de plaquetas e transferência para nível mais alto de complexidade de tratamento), embora descritos nos prontuários, não identificaram EAM. E quatro (antagonista de benzodiazepínicos, antagonista de opioides, PTT > 100 segundos e INR >6) não foram encontrados em nenhum dos prontuários revisados7.

Neste estudo, os principais rastreadores identificados foram antieméticos (31,5% dos prontuários), anti-histamínicos (24,2%) e hipoglicemia (16,4%). De maneira diferente, um estudo de aplicação de rastreadores realizado em hospital universitário do Oeste do Paraná encontrou antieméticos (72,1%), interrupção abrupta da medicação (70,0%) e sedação excessiva, sonolência, torpor, letargia, queda e hipotensão (34,6%) predominantemente13. Esta diferença pode estar relacionada ao perfil dos pacientes investigados.

Entre os rastreadores que foram observados neste estudo, os antieméticos podem indicar eventos adversos relacionados aos analgésicos e sedativos. No caso de pacientes em tratamento de queimaduras, os anti-histamínicos podem relacionar-se ao manejo de reações alérgicas, bem como, para o alívio de prurido decorrente da reepitelização. Os níveis de glicose abaixo de 50 mg/dL podem relacionar-se a uma dose elevada de insulina ou outro hipoglicemiante, contudo, hipoglicemia também pode estar relacionada à necessidade de inúmeros procedimentos cirúrgicos que exigem jejum dos pacientes queimados para sua realização. Fato este que é confirmado pela baixa prevalência de diabetes na amostra e também do uso de medicamentos hipoglicemiantes.

Observou-se que em mais da metade dos pacientes hospitalizados por queimaduras os rastreadores de eventos adversos aos medicamentos estiveram presentes, em contraste aos poucos registros de EAM nos prontuários. Considera-se que este desencontro de informações pode estar relacionado à falta de um método eficaz de identificação e registro destes eventos. Os registros podem contribuir para a elaboração de medidas de minimização de danos e custos.

No total de 219 pacientes queimados estudados, a incidência de eventos adversos registrados foi de 5,0%, tendo sido encontrada uma taxa de 24 EAM em 219 hospitalizações. Os resultados deste estudo apontaram que em 8,9% dos prontuários com presença de rastreadores os pacientes de fato foram acometidos por EAM. De maneira diferente, o estudo de Rozenfeld et al.7 mostrou que, em 15,6% dos prontuários com presença de rastreadores, os pacientes realmente tiveram EAM. Resultado semelhante foi encontrado em estudo realizado em hospital oncológico do Rio de Janeiro que realizou busca ativa de reações adversas a medicamentos com a metodologia de trigger tool e comparou os resultados com o método de notificação voluntária utilizada na instituição. Na revisão de 608 prontuários foram encontrados 165 rastreadores que detectaram 18 reações adversas a medicamentos em 15 pacientes14.

Estudo retrospectivo realizado em população pediátrica utilizou Global Trigger Tool (GTT) para identificar eventos adversos em 200 pacientes. Os autores identificaram 289 rastreadores (1,4 por paciente) e 53 eventos adversos (26 eventos adversos por 100 pacientes)5.

Um estudo retrospectivo, realizado num centro hospitalar de Portugal, utilizou a metodologia de Global Trigger Tool (GTT) para identificar eventos adversos em pacientes hospitalizados. Os autores encontraram 278 rastreadores em amostra de 90 prontuários, dos quais 124 resultaram em eventos adversos15. Os achados do estudo português apontaram maior número de EAM identificados pela metodologia de rastreadores que nos pacientes queimados deste estudo.

Os 219 pacientes foram expostos a até 59 diferentes medicamentos durante o período de estudo. Em revisão sistemática da literatura empreendida por Lanzillotti et al.16, os autores concluíram que os eventos adversos relacionados ao uso de medicamentos são os mais frequentes em ambiente hospitalar devido à maior exposição aos medicamentos.

A relação entre maior exposição aos medicamentos e presença e EAM também foi confirmada pelos resultados deste estudo. Devido à gravidade das lesões e às complicações decorrentes do trauma, observa-se a necessidade de grande aporte medicamentoso no tratamento destes pacientes. Dentre os medicamentos mais prescritos, estão os antibacterianos de uso sistêmico e os analgésicos, importantes no manejo de infecções e da dor, muito presentes nestes casos.

Neste estudo, os antibacterianos de uso sistêmico foram muito utilizados na prevenção e tratamento de infecções nos pacientes queimados, resultado já apontado por Rosanova et al.17 com hemo-cultura positiva em 76,3% pacientes queimados e uso de colistina em 62% destes. Os medicamentos analgésicos encontrados nesse estudo estão de acordo com os descritos por outros autores18, o que poderia apontar para uso padronizado da terapêutica disponível no hospital para manejo da dor.

As limitações do estudo foram, em parte, devido ao modelo, no qual a coleta de dados deu-se pela análise retrospectiva de prontuários. Novos trabalhos que acompanhem de forma prospectiva e que possibilitem a discussão da presença dos rastreadores e suspeitas de EAM com a equipe de cuidado e o núcleo de segurança do paciente são estratégias importantes a serem incorporadas.

Os dados foram coletados de um centro de referência em queimados de um único hospital (validade interna), não sendo generalizáveis para outras unidades de queimados do país (validade externa). Contudo, de acordo com o Institute for Healthcare Improvement uma amostra aleatória mensal de 20 prontuários é suficiente para o monitoramento de rastreadores de eventos adversos12. Neste estudo, o mesmo número de pacientes foi acompanhado (considerando a média mensal), o que permitiria fazer inferências sobre a utilização dos rastreadores na população de pacientes hospitalizados por queimaduras.

Por se tratar de uma abordagem nova em pacientes queimados, não há padrão ouro comparativo e como determinar a especificidade ou sensibilidade dos rastreadores nesses casos. Adicionalmente, o hospital não realiza rotineiramente alguns testes laboratoriais e microbiológicos relacionados a rastreadores, não permitindo a avaliação da capacidade de identificar eventos adversos de todos os rastreadores propostos pelo IHI.

Este estudo pode não ter considerado todos os medicamentos para sedação e analgesia utilizados nos procedimentos e cirurgias a que os pacientes foram submetidos. Fato que excluiu importante parcela de medicamentos e impediu a identificação e análise de possíveis eventos adversos e aplicação de rastreadores relacionados.

A lista de rastreadores utilizada neste estudo foi desenvolvida por pesquisadores de hospital com níveis de atendimento secundário e terciário, com diversas especialidades clínicas e cirúrgicas, contudo, sem atendimento de pacientes queimados.

A metodologia foi desafiada pela especificidade do trauma das queimaduras e mostrou a necessidade de adaptação dos rastreadores à realidade clínica deste grupo, aos exames realizados e aos medicamentos padronizados no hospital estudado. Os resultados apontaram para exigência de identificação de novos rastreadores com base nos EAM desses pacientes e assim possivelmente observar um melhor desempenho dos rastreadores quanto à identificação de potenciais EAM.


CONCLUSÃO

A ocorrência de eventos adversos foi associada significativamente ao amplo uso de medicamentos durante a internação nos pacientes vítimas de queimaduras. O uso de rastreadores era uma ferramenta até então não utilizada no monitoramento de eventos adversos aos medicamentos nos pacientes deste hospital. Observou-se que a busca ativa de eventos adversos com uso de rastreadores ajudou na detecção de eventos dessa natureza, o que poderia melhorar o cuidado em saúde dos pacientes queimados.

Contudo, os resultados apontaram a necessidade de adequação da lista de rastreadores com validação de rastreadores específicos para a terapêutica das queimaduras devido à complexidade do tratamento e a dificuldade de diferenciação entre a evolução clínica e o rastreador, o que sugere realização de novos estudos.


AGRADECIMENTO

Os autores agradecem as farmacêuticas Carla Carlos dos Santos e Priscila Batista Correa Parente e à equipe da Unidade de Tratamento de Queimados do Hospital Regional da Asa Norte, Brasília, DF, pela ajuda na coleta dos dados desta pesquisa.


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Recebido em 23 de Julho de 2018.
Aceito em 17 de Fevereiro de 2019.

Local de realização do trabalho: Hospital Regional da Asa Norte, Brasília, DF, Brasil.

Conflito de interesses: Os autores declaram não haver.


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