Fabiano Calixto Fortes de Arruda
DOI: 10.5935/2595-170X.20250026
Na Segunda Guerra Mundial, o general Dwight D. Eisenhower compreendeu que nenhuma ordem sobreviveria sem confiança. Afinal, quem daria sua vida por interesses escusos, ou mesmo por razões que não ameaçassem sua pátria e sua família. Às vésperas do Dia D, ele visitou soldados comuns, ouviu dúvidas, assumiu publicamente a responsabilidade por um possível fracasso. Esse gesto não aumentou sua autoridade formal - aumentou sua legitimidade moral1.
Da mesma forma, o cirurgião plástico que atua com queimaduras lidera, pelo exemplo: no cuidado com o paciente mais grave, na escuta da equipe exausta, no respeito às limitações humanas. Cuidar do paciente queimado é exaustivo para toda a equipe: a enfermagem vê a fragilidade e a dor na realização do curativo, a psicologia na mente caótica com a dor e o futuro, o intensivista na esperança de reacender um futuro apagado pelo trágico. A autoridade que nasce do título é fugaz; a que nasce da coerência e do dia a dia é duradoura.
Autores como Viktor Frankl, sobrevivente de campos de concentração, lembram que o ser humano suporta quase qualquer "como" quando encontra um "porquê"2. O paciente queimado, assim como a equipe que o acompanha, precisa compreender o sentido do esforço, da dor e da espera. Cabe ao líder médico traduzir o propósito: restaurar função, identidade e dignidade. Como trazer dignidade ao que perdeu sua identidade? Só pode ser respondida quando o motivo é que nos identificamos como seres humanos
Criar um ambiente psicologicamente seguro - onde o técnico de enfermagem pode alertar sobre um risco, onde o residente pode admitir dúvida - não é sinal de fraqueza, mas de maturidade institucional. Equipes que se sentem respeitadas erram menos, comunicam melhor e cuidam mais. Aliás, a falta de comunicação é um problema central, ela gera complicações, prejudica o tratamento e num mundo tecnológico desumaniza.
Consciência estratégica e adaptabilidade: Decidir em ambientes incertos
A medicina das queimaduras raramente oferece respostas lineares. Cada paciente representa um terreno diferente. Aqui, a adaptabilidade é virtude central. Isto porque não somos uma série criada em laboratório com as mesmas características. Deus nos criou únicos.
Durante a guerra, o marechal alemão Erwin Rommel, no deserto africano, demonstrou que repetir táticas em cenários distintos leva ao fracasso3. Ele venceu batalhas não por superioridade numérica, mas por leitura dinâmica do ambiente. Na medicina, o princípio é o mesmo: protocolos são guias, não algemas.
O cirurgião como líder precisa desenvolver:
Agilidade de aprendizado, incorporando novas evidências
Autorregulação emocional, especialmente diante de complicações
Consciência dupla, reconhecendo vieses pessoais e limites técnicos
Como defende Daniel Kahneman4, decisões sob estresse tendem a ser dominadas por atalhos cognitivos. A liderança madura cria pausas deliberadas para refletir, checar hipóteses e ouvir a equipe antes de agir. No centro cirúrgico, essa pausa salva vidas.
Integridade e liderança ética: Quando o comando exige coragem
A história da Segunda Guerra também oferece alertas sombrios. Médicos que abandonaram princípios éticos, mesmo altamente capacitados, tornaram-se instrumentos de barbárie. Essa memória reforça uma verdade incômoda: competência sem ética é perigo.
Médicos militares liderados pelo cirurgião plástico britânico sir Archibald McIndoe, mesmo com recursos escassos com a pressão de tomar decisões rápidas, ao tratar pacientes gravemente queimados da Royal Air Force, compreenderam que disciplina técnica, não é por si suficiente. Ele inovou criando protocolos cirúrgicos, mas também compreendendo a necessidade de criar uma cultura de pertencimento, transformando seus pacientes no famoso Guinea Pig Club, com vítimas sendo transformadas em combatentes da própria reconstrução5,6.
Na medicina contemporânea, integridade significa:
Colocar a saúde do paciente acima do ego e do próprio paciente
Reconhecer limites técnicos
Recusar atalhos que comprometam segurança
Enfrentar condutas inadequadas, mesmo quando desconfortável
Como escreveu Hannah Arendt, o mal frequentemente se instala não por crueldade explícita, mas por banalização e silêncio7. O líder médico não pode ser cúmplice da omissão. Criar canais de melhorias e de denúncias por falta de material adequado ou de equipe é ético e respeitoso.
A ética não é apenas individual; ela é sistêmica. Protocolos, regulações, cultura institucional e traços de personalidade interagem constantemente. Cabe ao cirurgião líder sustentar esse equilíbrio: firmeza com autoridade e sem autoritarismo, empatia sem permissividade8.
Conclusão: Liderar é reconstruir
Na cirurgia plástica e no cuidado ao paciente queimado, liderar é um ato reconstrutivo. Reconstrói-se pele, função, identidade - mas também equipes, culturas e valores.
Assim como nos grandes momentos da história, quando líderes precisaram decidir sob pressão extrema, o médico líder de hoje atua em um campo onde o erro custa caro e o acerto transforma vidas. Estratégia sem humanidade é vazia; humanidade sem disciplina é ineficaz9-11.
Cada plantão, cada cirurgia, cada conversa difícil é uma oportunidade de liderança. E, como ensina a história, os líderes que realmente permanecem não são os que vencem batalhas isoladas, mas os que deixam estruturas mais fortes do que encontraram. E você, qual estrutura está construindo?
REFERÊNCIAS
1. Eisenhower DD. Crusade in Europe. New York: Doubleday; 1948.
2. Frankl VE. Sobre o sentido da vida. Boston: Beacon Press; 1959.
3. Clausewitz C von. On War. Howard M, Paret P (trads.). Princeton: Princeton University Press; 1976.
4. Kahneman D. Thinking, Fast and Slow. New York: Farrar, Straus and Giroux; 2011.
5. McIndoe AH. The Guinea Pig Club: reconstructive surgery and rehabilitation of burned airmen during World War II. Br J Plast Surg. 1947;1(1):1-12.
6. Bouhadana G, Aljerian A, Thibaudeau S. The Reconstruction of Plastic Surgery: A Historical Perspective on the Etymology of Plastic and Reconstructive Surgery. Plast Surg (Oakv). 2023;31(4):366-70. DOI: https://doi.org/10.1177/22925503211064377.
7. Arendt H. Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil. New York: Viking Press; 1963.
8. Shanafelt TD, Noseworthy JH. Executive leadership and physician well-being: nine organizational strategies to promote engagement and reduce burnout. Mayo Clin Proc. 2017;92(1):129-46. DOI: https://doi.org/10.1016/j.mayocp.2016.10.004.
9. West MA, Lyubovnikova J. Illusions of team working in health care. J Health Organ Manag. 2013;27(1):134-42. DOI: https://doi.org/10.1108/14777261311311843
10. Edmondson AC. Psychological safety and learning behavior in work teams. Adm Sci Q. 1999;44(2):350-83. DOI: https://doi.org/10.2307/2666999.
11. Sinek S. Start With Why: How Great Leaders Inspire Everyone to Take Action. New York: Portfolio; 2009.